Fonte que capacita

As bênçãos mais doces, por uma leve perversão, podem produzir o mais amargo fruto.

O sol dá vida, mas as insolações matam.

Prega-se para dar vida, mas se pode obter morte.

O pregador possui as chaves: tanto para fechar como para abrir.

A pregação é uma grande instituição divina para a semeadura e o amadurecimento da vida espiritual.

Quando convenientemente executada, seus benefícios são incalculáveis.

Quando erroneamente realizada, nenhum mal pode superar seus resultados danificadores.

É fácil destruir o rebanho, se o pastor for incauto ou o pasto for destruído.

É fácil capturar a fortaleza, se as sentinelas estiverem adormecidas ou o alimento e a água forem envenenados.

Investido de tais graciosas prerrogativas, exposto a tão grandes males, envolvendo tão numerosas e graves responsabilidades, seria uma caricatura da astúcia do diabo e um libelo contra seu caráter e reputação, se este não empenhasse suas influências mestras para adulterar o pregador e a pregação.

Em face de tudo isto, a exclamação de Paulo “para estas coisas quem é idôneo?” (II Co. 2:16) não está fora de propósito.

Paulo diz:

“A nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros dum novo testamento, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata e o espírito vivifica” (II Co. 3:5,6).

O verdadeiro ministério é ungido por Deus, capacitado por Deus e formado por Deus.

O Espírito de Deus está sobre o pregador, ungindo-o de poder, o fruto do Espírito está no seu coração, o Espírito de Deus vitaliza o homem e a palavra.

Sua pregação dá vida, concede vida como a primavera desperta vida.

Dá vida como a ressurreição dá vida.

Outorga vida ardente como o verão dá vida ardente.

Dá vida frutífera como o outono dá vida frutífera.

O pregador que ministra vida é um homem de Deus, cujo coração tem sempre sede de Deus, cuja alma está buscando a Deus constante e intensamente, cujos olhos estão postos só em Deus e em quem, pelo poder do Espírito de Deus, a carne e o mundo foram crucificados e seu ministério é como a corrente abundante de um rio que dá vida.

A pregação que mata não é uma pregação espiritual.

A capacidade de tal pregação não vem de Deus.

Fontes inferiores e não Deus lhe deram energia e estímulo.

O Espírito não se manifesta nem no pregador nem na pregação.

Muitas espécies de forças podem ser projetadas e estimuladas por uma pregação que mata, mas elas não são forças espirituais.

Podem assemelhar-se às forças espirituais, mas são meramente sombras e falsificações.

Podem parecer que têm vida, mas essa vida é mentira.

A pregação que mata é da letra.

Pode ter bela forma e ordem, mas continua a ser letra, letra rude e seca, casca nua e vazia.

A letra pode ter nela o gérmen da vida, mas não tem a aragem da primavera para despertá-la.

São sementes do inverno, tão duras quanto o solo hibernal, tão gélidas como o ar de inverno, e por elas não se derretem nem germinam.

A pregação da letra contém a verdade.

Mas, ainda que verdade divina, sozinha não possui energia vivificante.

Deve ser revigorada pelo Espírito, com todas as forças divinas em seu apoio.

A verdade que não for vivificada pelo Espírito de Deus, embota tanto quanto ou mais do que o erro.

Pode ser uma verdade sem mistura.

Mas, sem o Espírito, o seu matriz e o seu toque são mortais.

Sua verdade, erro.

Sua luz, trevas.

A pregação da letra não é ungida nem suavizada nem lustrada com óleo pelo Espírito.

Pode haver lágrimas.

Lágrimas, porém, não podem pôr em movimento a maquinária de Deus.

As lágrimas podem ser apenas uma brisa de verão sobre um “iceberg” coberto de neve, só derrete a superfície e nada mais.

Podem haver emoção e ardor, mas é a emoção de um ator e ardor de um advogado.

O pregador pode sentir o entusiasmo do seu próprio brilhantismo, ser eloqüente sobre sua própria exegese, ardente para transmitir o produto de seu próprio cérebro.

O professor pode usurpar o lugar e imitar o fogo de um apóstolo.

Cérebros e nervos podem tomar o lugar e simular a obra do Espírito de Deus, e com estas forças a letra pode irradiar luz e brilhar como um texto iluminado, mas o brilho e a centelha serão tão destituídos de vida como o campo semeado de pérolas.

Um elemento mortal jaz atrás das palavras, do sermão, da ocasião, dos modos, da ação.

O maior obstáculo está no próprio pregador.

Não traz em si mesmo as forças poderosas que produzem vida.

Pode não haver desconto na sua ortodoxia, honestidade, pureza ou ardor.

Mas, de algum modo, o homem, o homem interior, no íntimo, nunca se quebrantou e sujeitou a Deus.

Sua vida interior não é uma grande via para a transmissão da mensagem de Deus, do poder divino.

De alguma forma, é o ego e não Deus quem governa o santo dos santos.

Em algum lugar sem que disso tenha consciência, algum elemento espiritual incondutível tocou no seu interior e a corrente divina foi detida.

Seu ser interior nunca sentiu o quebrantarnento espiritual completo, sua total incapacidade.

Nunca aprendeu a clamar com um clamor indizível de desespero de si mesmo e impotência própria, até que venha o poder de Deus e o fogo divino o encha, purifique e torne capaz.

O amor-próprio e a aptidão própria, de alguma forma pecaminosa, profanaram e violaram o templo que devia estar consagrado a Deus.

A pregação vivificante custa muito ao pregador:

morte do ego,

crucificação para o mundo,

iluminação da própria alma.

Só a pregação crucificada pode dar vida.

E a pregação crucificada só pode vir de um homem crucificado.

~ Fonte | Livro "Poder através da oração" de E.M. Bounds, conteúdo do capítulo 2 intitulado "Nossa capacidade vem de Deus". O livro é disponibilizado gratuitamente no link "http://monergismo.com/e-bounds/poder-atraves-da-oracao/".

~ Por | Daniel Marinho